Digital Fraud

Bitcoin e os riscos digitais no Brasil

Por Deivid Luchi em
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Introdução_

A mídia tem sido inundada, nos últimos anos, por termos como “moedas digitais”, “criptomoedas”, “dinheiro virtual”, “blockchain”, entre outros. Entre todos, no entanto, o que mais se destaca é o termo bitcoin. Por ser algo novo e disruptivo, o assunto atrai a curiosidade de muitas pessoas, sejam entusiastas, investidores ou curiosos. Também atrai usuários mal intencionados, que visam enganar e tirar proveito de um novo sistema financeiro. Neste artigo, conceituamos o que são criptomoedas, comentamos as principais ameaças desse mercado e damos dicas de segurança para os usuários.

Conceitos

Criptomoedas são moedas digitais, o que é diferente de moeda virtual. Moeda virtual é todo dinheiro armazenado de forma virtual, como, por exemplo, o dinheiro que você transaciona por meio de caixas eletrônicos e internet banking. As criptomoedas são descentralizadas e, parcialmente, anônimas. Não têm relação com governos ou com outras entidades legais, nem são baseadas em commodities, como o ouro, por exemplo.

Sua integridade é mantida por meio de criptografia e redes peer-to-peer. Uma rede peer-to-peer é uma rede distribuída, sem concentrador ou nó central (como no modelo cliente/servidor). Esse tipo de rede normalmente é utilizado para a transferência de arquivos, fazendo de todos os usuários, ao mesmo tempo, clientes e servidores.

Os criadores do bitcoin indicam diversas propriedades que podem torná-lo a moeda global ideal para consumidores e lojistas. Com o bitcoin, é possível enviar dinheiro de forma rápida, com baixo custo, para qualquer lugar do mundo, o que o torna útil para micropagamentos (pagamentos de baixas quantias de dinheiro). Também possibilita que organizações recebam doações anonimamente, permitindo que elas conduzam seus negócios sem a intervenção ou a ajuda de governos ou de outros órgãos. O Wikileaks é um exemplo de organização beneficiada por esse recurso.

Outro conceito importante para o entendimento de como criptomoedas funcionam é o blockchain. O blockchain pode ser descrito, de forma simplificada, como uma lista pública onde todas as transações que envolvem criptomoedas são registradas. Com o intuito de evitar fraudes, cada grupo de transações, chamado de bloco, é matematicamente relacionado com as transações anteriores, contabilizando a quantia de determinada moeda disponível no mundo.

 O Bitcoin

O bitcoin é uma criptomoeda, a mais famosa delas. Economistas mais conservadores negam que criptomoedas possam ser consideradas, de fato, moedas, já que não têm as mesmas características de sua forma mais tradicional. O bitcoin não é ilegal, por mais que, na maioria dos países, ainda não seja regulamentado. Atualmente, diversas lojas aceitam bitcoin como forma de pagamento (para uma lista de estabelecimento que o aceitam, acesse o site Negocie Coins

O bitcoin opera sem intermediários. Com criptomoedas em geral, não é necessário um banco. Você guarda sua moeda em uma carteira virtual e tem a responsabilidade de mantê-la segura. Caso queira enviar bitcoins para alguém, você envia diretamente para a pessoa, sem ter de passar por bancos ou corretoras. Atualmente, corretoras existem para facilitar a compra e a venda de bitcoins, ajudando os usuários que quiserem adquirir a moeda.

O bitcoin é privado, mas não anônimo. Todas as transações são armazenadas no blockchain, conforme mencionado anteriormente, o que impede o anonimato transacional. É possível ver todo o caminho que um bitcoin ou uma fração de bitcoin percorreu desde sua criação até a carteira atual. A privacidade é garantida, pois não é possível ligar diretamente uma pessoa a uma carteira. As carteiras são geradas por algoritmos criptográficos, não sendo realizado nenhum tipo de cadastro por parte dos usuários.

Toda transação de bitcoin é irreversível. Caso se faça uma transferência para a pessoa errada ou para uma carteira inexistente, o bitcoin será perdido. Como não existe intermediador, e sendo essa uma moeda descentralizada, não há alguém com quem entrar em contato para relatar problemas de transação.

Ameaças envolvendo o Bitcoin

Conheça as principais ameaças a quem deseja transacionar bitcoin ou outra criptomoeda:

  • Páginas falsas: o famoso phishing também atinge corretoras de bitcoin. Para aprimorar os cuidados com páginas falsas de corretoras, siga as dicas de segurança contra phishing, na nossa série introdutória.
  • Golpes: com a popularização do bitcoin, do blockchain e de outras criptomoedas, começaram a surgir esquemas de pirâmide usando falsas ofertas como pretexto para enganar clientes. Duvide sempre de negócios que pareçam bom demais para ser verdade. Lembre-se: o bitcoin é livre, não sendo necessário envolver terceiros, comprar pacotes de serviços ou coisas do gênero. Promessas de participações em lucros, em dividendos e na criação de novas moedas virtuais também são grandes indicadores de golpes.
  • Bitcoins de graça: páginas que prometem dar bitcoin em troca de coisas simples, como views em vídeos, cliques em banners e em propagandas, respostas a questionários, ou formas milagrosas de criação de moedas, também podem ser um golpe. A criação de moedas, seja bitcoin, seja outras criptomoedas, acontece apenas quando usuários conhecidos como “mineradores” validam matematicamente um bloco no blockchain.
  • Serviços: todo tipo de serviço que oferece a movimentação ou outras opções para seus bitcoins pode ser uma fraude. Software e serviços de carteira ou corretoras desconhecidos, serviços de aconselhamento de investimento em criptomoedas, robôs de investimento automáticos, entre outros, são extremamente arriscados, mesmo que haja opções genuínas. Apenas você pode  garantir a segurança de seus bitcoins, e transações são irreversíveis.
  • Malware: há trojans que atacam corretoras de bitcoin, da mesma forma que atacam bancos. Se você mantém sua carteira em software, com você ou em uma corretora, fique atento a ataques por malware. Se quiser saber mais sobre malware e sobre como se defender dessa ameaça, confira nossa série introdutória sobre o assunto.

Fraude Tropicalizada_

Bitcoin não é sinônimo de golpe no estilo "pirâmide", apesar de muitas empresas brasileiras oferecerem lucro fácil com esse produto. Pessoas mal-intencionadas aproveitam-se do pouco conhecimento da população sobre o funcionamento do bitcoin para aplicar golpes desse tipo. É importante lembrar que qualquer pessoa pode comprar e vender bitcoin livremente, sem necessitar de uma “organização” ou “empresa” como essas.

O bitcoin não gera dividendos nem lucros periódicos. Investimentos em bitcoin visam, basicamente, à especulação, do mesmo modo que ocorre com outras moedas, como o dólar. De forma simplificada, podemos também comparar essa atividade com o mercado de ações, por haver grandes variações em sua taxa de câmbio. Como não é possível prever uma valorização ou uma desvalorização do bitcoin, é preciso ficar atento às empresas que anunciam esse tipo de serviço.

Dicas de segurança

Se você tem bitcoin ou deseja comprar a moeda, adote algumas medidas de segurança, para garantir que seu dinheiro digital não será roubado:

  • Compre apenas por meio de corretoras renomadas. Tome cuidado com corretoras desconhecidas ou com taxas e valores muito abaixo do mercado. Prefira aquelas cuja qualidade do serviço possa ser averiguada.
  • Utilize todos os fatores de autenticação possíveis. Corretoras e carteiras disponibilizam diversos meios de autenticação. Ative quantos for possível! Reforçando: apenas você faz a segurança de seus bitcoins. Algumas das formas adicionais de autenticação são por e-mail e/ou sms, por token, pelo registro de IP e por biometria, entre outros.
  • Não deixe seus bitcoins em corretoras. Por mais seguras que elas sejam, já houve invasões em que muitos milhões de dólares de clientes foram perdidos. Carteiras de software cuja chave criptográfica fica com o usuário são boas escolhas. Caso tenha uma quantidade alta de dinheiro para investir, carteiras de hardware são a melhor escolha.
  • Mantenha suas informações sensíveis sempre seguras. Não reutilize senhas. Use senhas complexas e não compartilhe informações de acesso.
 
Referências

YERMACK, DAVID. Is Bitcoin a Real Currency?. SSRN Electronic Journal, 2013.

NAKAMOTO, SATOSHI. Bitcoin: A peer-to-peer electronic cash system. 2008

GRINBERG, REUBEN. Bitcoin: An innovative alternative digital currency. Hastings Sci. & Tech. LJ 4 2012

ULRICH, FERNANDO. Playlist: Introdução ao Bitcoin. YouTube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2kw0fS_k8-w&list=PLYKCQERMgWPjGoUrWqW-yvCE-dSNuyHEz>. Acesso em: 16  out.  2017.

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ESPECIALISTA CONVIDADO

Eduardo Schultze, Coordenador do CSIRT da Axur, formado em Segurança da Informação pela UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Trabalha desde 2010 com fraudes envolvendo o mercado brasileiro, principalmente Phishing e Malware

AUTOR

Deivid Luchi

Deivid Luchi é apaixonado por tecnologia e inovação. Entusiasta de Machine Learning e IA em geral. Tecnólogo em Segurança da Informação formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Possui cerca de 10 anos de experiência profissional em TI, sendo os dois ultimos anos dedicado em segurança da informação como analista de segurança da informação e antifraude.